Paula Cardoso nos conta como é ser uma mulher desdobrável

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Meu nome é Paula. Nasci e cresci na região central de São Paulo.
Em 1996, me formei em Direito e exerci por alguns anos a profissão de advogada. Em 1999, meu marido aceitou uma proposta de trabalho em Fort Lauderdale e foi onde moramos por três incríveis anos.
Nesta época que nasceu minha filha, Julia.
Logo após seu primeiro aniversário, decidimos voltar ao Brasil.
Com o avanço da minha idade (já estava com 36 anos) levei adiante a vontade de ter outro filho.
Laura nasceu em 2007, repleta de saúde e envolta em muito amor. Tudo parecia bem, até que por volta dos 2 anos e meio começou a apresentar algumas características diferentes. Isolava-se com frequencia, parecia mais quieta que o normal, passou a ficar extremamente incomodada em lugares públicos e não foram raras as vezes em que permaneceu de olhos fechados até que uma visita fosse embora de casa. Na escolinha que frequentava, comportamentos não habituais, como rituais repetitivos e isolamento, chamaram a atenção da professora e coordenação.
Sugeriram que a levasse ao psicólogo.
Nesta época, eu estudava para Magistratura e meu ex marido morava e trabalhava no México.
Com três anos completos e após várias avaliações de profissionais especializados, como neurologista, fono, neuropsicóloga e psiquiatra, Laura foi diagnosticada dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA).
De um dia para o outro, minha vida se transformou radicalmente. Abandonei o curso pra Magistratura, passei a estudar horas seguidas sobre o autismo e foi também nesta época que adquiri o hábito de dormir apenas 4 horas por noite.
Só conseguia pensar em trazê -la de volta deste mundo enigmático e silencioso no qual ela vivia completamente só.
Após noites em claro e buscas incansáveis na internet, descobri um método americano chamado Sonrise, onde a mãe é a responsável pelo programa de desenvolvimento e manutenção do tratamento. Baseia-se em montar um “quarto de brincar” com o menor número possível de estímulos visuais, sensoriais. A mãe, então, deve “juntar-se” à criança, de maneira responsiva, aceitando e validando cada manifestação e esteriotipias, buscando demonstrar empatia, aceitação e muito amor. As sessões devem ser gravadas e assistidas em outro momento, para que detalhes importantes não passem despercebidos (em que momento a criança apresenta contato visual, quando se afasta etc).

Foi uma época muito difícil. Não tinha com quem dividir estes momentos de quarto (nos Estados Unidos é comum a presença de voluntários que se alternam durante o dia) e cheguei muitas vezes à exaustão. Passávamos cerca de 3 horas diárias no quarto, no período da manhã. Em seguida íamos a alguma de suas muitas terapias. Foram várias ao longo dos anos e eram trocadas de acordo com as necessidades apresentadas: equoterapia, natação, fono, psicóloga, psiquiatra, terapeuta ocupacional, nutricionista, psicomotricista, pedagoga, artes. À noite, mais algumas horas de “quarto de brincar”.
A verdade é que eu corria contra o tempo (pelo menos assim eu acreditava). Não podia desperdiçar nenhum minuto. A ideia era estimulá-la mais e mais e mais.
Encontrei muita gente bacana no nosso caminho, mas minha grande parceira e amiga sempre foi minha filha mais velha, Julia.
De la pra cá, muitas imersões com profissionais de vários lugares. Fiz pós em neuroaprendizagem pra entender melhor o funcionamento do cérebro, me aprofundei no conhecimento da neurociências para trabalhar habilidades específicas entre as podas neurais. Algumas vezes, tentei ser a própria “cobaia” pra poder ajudá-la. O cérebro autista é complexo demais. Decidi aprender outro idioma pra entender o processo que utilizamos no conhecimento da linguagem e expressão. O quarto fechado foi se tornando desnecessário e o desenvolvimento correu solto.

Hoje a Laura tem nove anos, é uma criança feliz, com inteligência privilegiada e auto estima muito boa. Seu vocabulário é incrível. Estuda no quarto ano de um colégio tradicional alemão e não tem nenhuma ajuda ou privilégio na escola. Adora fazer amigos. Há pouco tempo, começou a escrever livros e disse que será escritora. Também fez teatro e canto por livre escolha. Sua nova paixão está sendo o curso de programação.
Tenho retomado minha vida. Alguns cuidados com o corpo e a mente se fazem necessários. Estou me arriscando na meditação e, algumas vezes, até faço as unhas.

Laura saiu do “quarto de brincar”, e eu, lentamente, estou saíndo aos poucos.

Como diria Adélia Prado: “mulher é desdobrável, eu sou”.